Sentir ou não sentir DOR…eis a questão!

A generalidade das pessoas na sociedade, incluindo também a grande maioria dos profissionais de saúde, acreditam que a dor é somente originada quando existe uma LESÃO.

A ideia que reina é que SEM LESÃO não há DOR! Mas esta ideia não é verdade!

Basicamente, o que as pessoas acreditam é que se sentem dor nalguma zona do corpo, tem de existir algo lá que esteja danificado, ora seja uma hérnia discal, ou algo rompido e desgastado…mas segundo a linha de pensamento da generalidade das pessoas, algo de MAU tem de existir nessa zona para provar a dor! Mas isso não é VERDADE!

Esta crença é baseada no modelo “Cartesiano” da dor, apresentado pelo filósofo Descartes há quase 350 anos, no qual ele descrevia através de um exemplo no seu livro “Treatise of Man” que “…A partícula da chama brota do fogo, toca o dedo do pé, move-se pela medula espinal até um pequeno sino sair no cérebro e dizer: ‘AUUUU. Isso dói!!!!” Este tem sido, infelizmente, o modelo que ainda vigora na maioria dos hospitais e consultórios médicos e que tem impedido os pacientes de conhecerem uma outra perspetiva de olhar a dor, que é libertadora e em diversos casos elimina mesmo por completo a sintomatologia que retira tanta qualidade de vida às pessoas.

Lamentavelmente, apesar da evidência científica provar o contrário há já vários anos, a maioria dos profissionais de saúde ainda baseia-se neste modelo Cartesiano, com quase 350 anos, ou também conhecido como modelo biomédico, criando nos pacientes o denominado efeito NOCEBO. Um estudo publicado na revista BMC Musculoskeletal Disorder em 2010 (1), utilizou como amostra, pessoas recuperadas de dor lombar. Essas pessoas, já sem dor, foram divididas em 2 grupos distintos: as pessoas do primeiro grupo foram advertidas a terem muito cuidado com a sua coluna, alertando e mostrando nos exames todas as alterações degenerativas e discais que tinham, sendo-lhes transmitidos todos os cuidados que deveriam ter para evitarem recidivar com a dor. Aplicaram aquilo que se conhece como efeito NOCEBO! No outro grupo de pessoas focaram os ganhos obtidos com o tratamento, transmitindo que já tinham boa mobilidade na coluna e já não havia razões para surgir dor. Foram incentivados a fazer todas as atividades que gostavam e a não pensarem mais na possibilidade de voltarem a ter dor porque não havia nada que o justificasse. Após 1 ano, os pacientes foram reavaliados e no primeiro grupo, 95% das pessoas recidivaram; no outro grupo 5% apenas recidivaram!

As pesquisas científicas sobre DOR têm demonstrado que quando temos dor, esta tem menos a ver com o estado atual dos nossos tecidos e mais a ver com o cérebro e o sistema nervoso.

Francamente, a dor não é tão simples quanto a maioria das pessoas, e até alguns profissionais de saúde, pensam. A dor é uma experiência multifatorial que é produzida por múltiplas influências e fatores. A dor não é simplesmente uma sensação causada por uma lesão, inflamação no corpo ou dano tecidular. Isso está claramente contra aquilo que aprendemos ao longo da nossa infância, isto é, a dor ter que ter sempre uma causa clara. Exemplo: Se nós nos trilhamos com o dedo na porta, o resultado é um dedo com dor; se nós caímos e magoamos o joelho, então sentimos dor no joelho. Tudo isso é verdade e verificável!

Será que a DOR pode ser vista como algo de BOM?!
SIM, claro que sim!

A dor é uma resposta natural, e também é boa, porque nos faz proteger a área lesada evitando danificá-la ainda mais! Isso faz-nos agir e promover a cura através do descanso.

A dor associada à inflamação é uma das formas primitivas de defesa que é essencial para o processo de reparação dos tecidos. Convém sempre pensar no inchaço, edema e dor após uma lesão como parte do próprio sistema interno de reparação e auto-cura e é importante ser agradecido por isso. O edema, que é o aspeto mais óbvio da inflamação e que preocupa tanta gente, é justamente uma consequência derivada da necessidade de obter sangue e substâncias químicas cicatrizantes na área.

A DOR funciona muitas vezes como um sinal evidente do corpo para a importância de nos movermos!

Enquanto que em muitas situações, a dor é frequentemente um bom guia para que a cicatrização seja mais adequada, proporcionando ao corpo boas condições de repouso para que o processo de cicatrização seja bem sucedido, noutras situações o que a dor significa é a necessidade do corpo ter movimento. A dor pode surgir pouco a pouco, por exemplo, em pessoas que trabalham muitas horas sentadas, e surge como mecanismo do corpo dizer que precisa de se movimentar. O sistema de alarme do nosso corpo trabalha para zelar pelo nosso bem-estar todo o tempo. Frequentemente dá simples avisos para que façamos mudanças.

Qual a importância da DOR na….prevenção de….uma lesão dolorosa?
O movimento é importante para que o corpo tenha uma boa irrigação sanguínea. A falta de movimento, ou uma compressão física, como estar sentado numa pedra leva a que os músculos e articulações sejam alvo de uma produção de líquido ou toxinas resultantes da atividade celular que acidificarão a zona. Se uma pessoa depois de um dia de trabalho em frente ao PC sente dor nos músculos, isso é provavelmente resultado do facto de que o ácido acumulado nos músculos e outros tecidos moles leva à abertura dos sensores de ácido, que conduz a que os impulsos ascendam rapidamente até a medula espinal e talvez até ao cérebro. Se o cérebro chega à conclusão que os músculos estão em perigo (o que parece lógico) e que por isso deveria fazer algo (o que também parece lógico) então sentiremos DOR. Qual é a solução?

MOVIMENTO!
Simplesmente fazermos movimentos!
Qualquer tipo de movimento!
Os movimentos espontâneos são os melhores. De facto, a simples ideia de sabermos que os tecidos se acidificam nos deveria fazer levantar e mover.

Este é um tratamento barato, que não necessita de medicação nem terapias da moda.

A DOR como ALERTA de PERIGO:

A dor é essencial para vivermos, porque nos protege do perigo, servindo de alerta e aviso normalmente antes que a lesão ou acidente aconteça. A dor vai fazer com que você se mexa de forma diferente, que pense e se comporte de maneira diferente o que também é vital para a cura.

O sistema de dor funciona de forma estranha porque às vezes podemos cravar um espeto no pé ou magoarmos-nos em algum lado, e só vamos ter dor quando vemos o sangue ou percebemos que temos o espeto no pé. Por outro lado, podemos ter dano no corpo como um cancro, porque alguns cancros malignos não são dolorosos, e o sistema de dor falhar!

Ainda que tenhamos algum problema nos músculos, articulações, sistema imune, nervos ou qualquer outra região, só se o cérebro reconhecer que está em perigo é que a dor aparece.

Por outro lado, posso não ter qualquer lesão mas se o cérebro reconhecer que os tecidos do corpo estão a ser alvo de um perigo real ou potencial, a dor pode aparecer.

“…Então como é possivel eu ter DOR mas não ter qualquer lesão que a justifique?…”

Muitas das pessoas que chegam à FISIOVIDA chegam perturbadas e confusas porque percorreram várias especialidades médicas e em nenhuma delas é explicada a causa da sua dor, porque segundo eles não há razões clínicas para a dor existir! São pessoa rotuladas de dor crónica para as quais a única esperança é que quando morrerem vão deixar de sentir dor…!!!
Todas as pessoas que experimentam uma dor que dura mais do que o tempo de cura e regeneração normal para qualquer tecido, que são os 3-6 meses, são pessoas rotuladas com dor crónica.

Contudo, o que se tem descoberto sobre dor crónica é que este tipo de dor muitas vezes tem mais a ver com o nosso sistema nervoso e cérebro do que com a condição real dos tecidos no corpo.

E é aqui que é bastante libertador ver a dor por essa perspetiva!

Numa situação de dor crónica, o sistema nervoso encontra-se num estado de hipersensibilidade, em que o limiar de ativação dos nocicetores está incrivelmente diminuído, ou seja, basta um pequeno estímulo para despoletar imediatamente dor! Lembra-se da última vez que cortou-se ou caiu e raspou o joelho no chão ficando em carne viva? Como ficou a zona do trauma?

Dorida, inflamada e hipersensível ao toque! Contudo, não é somente a zona do trauma que fica assim mas também a área ao redor fica dorida mesmo com um leve toque (definido como hiperalgesia e alodinia).

Numa dor crónica, o que acontece é que todo sistema nervoso está hipersensibilizado. Se usarmos terminologia informática, considera-se que músculos, articulações, ligamentos e pele são somente o hardware e todo o sistema nervoso é o software, onde toda a ação acontece. O problema da dor crónica é que o problema não está no hardware! O problema da dor crónica é que o software está cheio de vírus, estando por isso hipersensibilizado e hiperreativo! O cérebro continua a acreditar que há uma ameaça e envia por isso um sinal de dor. É por isso que para muitas pessoas que tiveram dor lombar, o simples facto de dobrar a coluna lombar ao transportar um pequeno peso, embora numa situação normal pareça inofensivo, numa situação de dor crónica é ameaçador o suficiente para provocar dor.

Quando a dor persiste ainda assim em muitos casos, ainda que a lesão inicial já tenha tido tempo suficiente para curar-se, considera-se que o cérebro conclui que a ameaça persiste e que necessitamos de toda a proteção que possamos conseguir.

Há que recordar um aspeto importante que é:
O CÉREBRO é o JUÍZ que toma a decisão final se deve ou não sentir dor!

Apesar do cérebro ser uma máquina formidável, numa situação de dor crónica, ele encontra-se num “estado de loucura”, porque apesar de não haverem lesões físicas, ele continua a considerar que existe uma quantidade suficiente de ameaças que colocam em causa os tecidos do corpo e por isso reage com a criação da percepção de DOR!

A dor crónica sempre foi um mistério. Por que é que essa dor deve durar por muitos anos quando o ferimento teve tempo suficiente para a cura? Múltiplos ferimentos por balas e grandes amputações podem cura-se em alguns meses, então por que é que uma pequena lesão no meu joelho ou ombro dura por muitos anos?
Ou
Como pode haver um grande número de pessoas que têm a mesma estrutura do corpo que eu com disfunção/lesão mas, ao contrário de mim, não sentem nenhuma dor?

Devido às distintas mudanças que o nosso sistema nervoso e cérebro fazem para proteger os nossos tecidos, podemos estar seguros de que a dor persistente não necessariamente reflete o estado dos nossos tecidos. Assim, se a nossa dor se prolonga mais além do tempo necessário para que cicatrizem os tecidos, este aumento de dor não significa necessariamente que estamos a sofrer nova lesão.
Da mesma maneira, as dores recorrentes têm frequentemente uma função protetora. Se sofremos de uma dor recorrente durante muitos anos, cada recorrência não significa que nos estejamos a voltar a lesionar o músculo, articulação, ligamento ou nervo. Cientificamente, tem mais sentido chegar à conclusão de que as recidivas se produzem devido a que uma série ou série de sinais foram suficientes para ativar a representação virtual duma antiga lesão no cérebro. É como se o nosso cérebro estivesse a fazer um check-up assegurando-se de que o nosso corpo está bem, saudável e a salvo. Talvez o cérebro decidiu interpretar novamente a “melodia da dor” para assegurar-se de que não nos esquecemos de algo que possamos fazer e vir a causar dano para o corpo.

“…Então se eu não tenho nenhuma lesão no corpo que justifique a minha dor, está-me a dizer que toda a DOR está na minha cabeça?”

Esta é provavelmente a pergunta que com maior frequência fazem as pessoas que estão a aprender a fisiologia da dor. Para ser honestos na resposta a esta questão temos de dizer que SIM!

Toda a dor é produzida pelo cérebro, e sem cérebro, não há dor.

Isto não significa nem por um segundo que a dor não seja real, senão que pelo contrário, toda a dor é real. Tecnicamente, a dor não começa ao nível dos tecidos: embora há um determinado tempo pensássemos que a dor se originava ao nível dos tecidos (e essa informação da “dor” era transmitida ao cérebro), agora compreendemos que esses transmissores, os nocicetores, enviam informações de “perigo” para o cérebro para serem processadas. Uma vez que a informação de “perigo” chega ao cérebro, então cabe ao cérebro decidir se esses sinais são perigosos o suficiente para produzir uma resposta de dor. É por isso que nós não temos recetores de dor ou vias ascendentes de dor como comumente se pensava.

A dor não começa até o cérebro determinar que isso é necessário para nos proteger!

Mas afinal o que são estes NOCICETORES?

Quando temos uma lesão no corpo são ativados recetores específicos no corpo chamados nocicetores, que são neurónios especializados que nos alertam para estímulos potencialmente prejudiciais. Poderemos denominá-los de “recetores de perigo”.

A DOR e a NOCICEPÇÃO são 2 conceitos normalmente confundidos. A nociceção é apenas uma sensação de potencial de dano!
Temos fibras na nossa pele, tecidos e músculos que captam informação exterior, sendo que esta é transmitida, como informação de potencial agressão ou potencial dano para o Sistema Nervoso Central – SNC. Se o SNC considerar com todas as variáveis que como individuos temos, que essa potencial agressão efetivamente existe, o nosso SNC cria uma experiência chamada dor, ou seja, é uma experiencia consciente, que é normalmente desagradável. É por isso que o SNC para nos proteger desse potencial dano cria essa experiência.

Podemos por isso ter o mesmo estímulo, com a mesma intensidade e potencial lesivo, e numa pessoa provocar dor e noutra não ou numa pessoa provocar um tipo de dor diferente comparativamente a outra pessoa

Em RESUMO, a nociceção é por isso um estimulo potencial lesivo e a dor é uma experiência causada para nos defender desse estímulo.

O cérebro é o responsável de tomar a última decisão sobre se algo é perigoso para os tecidos do corpo e se requer empreender alguma ação. Como seres humanos temos uma vantagem fantástica com respeito aos outros seres, já que podemos planificar acontecimentos e podemos aprender rapidamente da experiência para usar a lógica e prever o futuro. Isto significa que podemos identificar uma situação como potencialmente perigosa antes de que chegue uma informação aos tecidos. Tudo isto está bem, contudo quando o sistema está realmente sensibilizado, como no caso da dor crónica, ainda que os estímulos não se relacionem com o dano nos tecidos, se o cérebro os considera perigosos, podem ser suficientes para provocar dor. Isto pode suceder sem que não estejamos conscicentes disso.

É bem conhecido, que algumas pessoas com dor persistente, somente com o simples facto de pensarem num movimento ou observar alguém a realizar esse movimento já percebem/sentem dor. De facto, em alguns pacientes, simplesmente o facto de imaginar um movimento pode ser suficiente para que se inflame a zona dolorosa. Muitos deles dizem que só de pensar já lhes dói. Isto é absolutamente compreensível e não é sinal de que a pessoa está mal da cabeça. De facto, é até bastante lógico, se recordarmos que o cérebro aprendeu a ser um especialista em proteger a pessoa de qualquer coisa que possa ser perigosa para os seus tecidos. Pensamentos como “o médico pensa que eu estou a inventar” ou “O TAC não tem nada por isso devo ter algo muito grave ou profundo” ou “a tia maria teve dor lombar e agora está numa carreira de rodas”. Tudo isto são ameaças para um cérebro preocupado pela sua sobrevivência. Estes pensamentos e o medo ao realizar certas atividades, ou o medo de voltar a lesionar-se são capazes de agravar a dor.

Graças à investigação científica, agora somos conscientes de que os processos mentais são tão potentes que podem perpetuar uma situação de dor. É como um vírus que o PC tem, neste caso o PC é o Sistema Nervoso.

Ainda que o processo de dor se produza no cérebro, este tem uma manifestação anatómica e biológica real. Pensamentos, ideias, medos e emoções são considerados como impulsos nervosos que têm consequências eletroquímicas sobre o cérebro, da mesma forma que os estímulos dos tecidos lesados também têm consequências eletroquímicas.

O que determina de facto o cérebro reconhecer que é importante criar a experiência da DOR?

As suas atitudes, crenças, experiências vividas, conhecimento, contexto social, estado emocional e assim por diante, podem todas ser variáveis confusas influenciando a decisão do seu cérebro. O que temos que compreender é que a nociceção é somente uma das muitas entradas que o cérebro avalia para perceber se ele está realmente em perigo. A dor só é criada se o cérebro concluir que o corpo está em perigo e que uma ação é necessária.

Compreender os processos da medula espinal e do cérebro que estão por detrás da experiência da dor pode conceder-nos um enorme controlo da situação.

A dor é um fenómeno muito complexo, sobre o qual ao longo das últimas décadas muitos investigadores têm dedicado a sua atenção. Na FISIOVIDA uma grande parte do nosso sucesso na eliminação de diversos casos de dor incapacitante e crónica, deriva do estudo e especialização que temos no conhecimento sobre a neurofisiologia da dor.

Apesar da dor ser uma experiência consciente, há um enorme “jogo” de bastidores que ocorre e que explica o porquê de algumas pessoas, perante o mesmo estímulo terem ou não dor.

Por exemplo, quando uma pessoa pisa um prego com o seu pé, o cérebro vai imediatamente entrar numa fase de análise e processamento de informação com base em diversas variáveis, sendo que uma delas, serão as experiências similares prévias, tudo isto com o objetivo de tentar determinar a melhor forma de reagir. E tudo isto acontece inconscientemente:

  • “Quando é que me vacinei pela última vez?”
  • “Deveria tirar já o prego ou parecerei maluco diante dos outros?”
  • “Estarei a perder muito sangue?”
  • “Será que isto vai originar o término da minha carreira desportiva?”
  • “Vou necessitar de usar “muletas”?”
  • “Terei que ir ao hospital?”
  • “Será que isto vai infetar?”
  • “Poderei continuar a trabalhar ou vou ter de colocar baixa?”
  • “Vou precisar de comprar sapatos novos?”
  • “Será que o seguro vai comparticipar este acidente?”

    O assombroso é que esta pessoa não tem qualquer ideia do que o seu cérebro considerou neste pequeno espaço de tempo desde que sentiu o prego no pé. Tudo o que ele sabe é que dói!

    Muito do trabalho no tratamento da dor é “enganar” o cérebro para alterar a percepção da dor!

    Uma forma de percebermos que é o cérebro que controla a percepção de DOR é o facto de SER POSSÍVEL TER DANOS NOS TECIDOS E NÃO SENTIR DOR.

    Ainda que a dor seja muito desagrável e chegue ao ponto de nem nos deixar pensar, sentir ou concentrarmos-nos em qualquer outra coisa, há situações em que se o cérebro pensa que sentir dor não é o mais adequado para a sobrevivência podemos nem sentir nesse momento mesmo que tenhamos uma lesão muito grave. (ex: soldado ferido que foge do inimigo ou alguém com perna partida a fugir de um leão).

    Os investigadores descobriram também que 37% dos pacientes em Unidades de Urgência Hospitalar, que estavam alertas, racionais e coerentes, não sentiam dor no momento da lesão. A maioria desses pacientes relatou dor apenas após uma hora do acidente, mas alguns pacientes relataram atrasos de até nove horas ou mesmo mais. Em pacientes com lacerações, cortes, escoriações e queimaduras, 53% tiveram um período de tempo sem dor e, mesmo no grupo de pacientes com fraturas, entorses, hematomas, amputações, feridas e esmagamento, 28% foram através de um período sem dor.(2)

    Então como essas lesões horríveis podem resultar em NENHUMA dor?
    A resposta está em que os nossos recetores, os nocicetores, enviam sinais de perigo, e finalmente cabe ao cérebro produzir uma resposta. Na maioria das vezes essas lesões horríveis aconteceram num contexto no qual a sobrevivência da pessoa estava em jogo, o que é muito mais ameaçador do que a lesão (por exemplo: foco na lesão ou mantenha a vida).

    E quando o tempo passa e o cérebro conclui que você está fora de perigo, ele então foca de volta no braço amputado. “…Não posso trabalhar, não posso cuidar dos meus filhos, eu sei e já vi a luta dos amputados, posso ver o sangue no curativo…”: todas essas crenças, atitudes e pistas sensoriais estão só a aumentar o nível do medo ou da ameaça da lesão no cérebro, o que resulta na DOR!

    Agora o que aconteceria se os seus pensamentos/atitudes fossem mais positivos ou menos ameaçadores?
    Em 1950 Henry Beecher fez um estudo parecido. Queriam saber por que os soldados que eram feridos na guerra tomavam muito menos morfina do que um civil, ou porque eles sentiam muito menos dor do que era esperado. Os resultados indicaram que é simplesmente por causa do “significado”. Para um soldado, apesar de ter vivenciado um ferimento maior ou uma amputação, ele ainda assim sobreviveu à guerra, pode voltar para casa e ficar com a sua família e amigos. As crenças e atitudes do soldado foram provavelmente influenciáveis para o sistema de defesa do cérebro, resultando em muito menos dor do que o esperado.
    E todas estas coisas acontecem numa fração de segundo e estão fora do nosso controle consciente.

    Se o cérebro envia uma resposta de dor e a nocicepção é apenas uma das entradas, podemos sentir dor sem nocicepção?
    Sim.
    Um exemplo clássico é a dor do membro fantasma, que nos deixa perplexos há anos. Na dor do membro fantasma, esqueça dano e nociceção; as pessoas não têm mais uma parte do corpo, e ainda assim sentem dor (na parte do corpo que está a faltar). A dor do membro fantasma é um exemplo excecional de como a dor ocorre na ausência de nociceção.

    Todas as pessoas que sofrem dor podem beneficiar em saber algo mais sobre a dor fantasma.
    O membro fantasma pode picar, dar formigueiro e dor. Os sintomas do membro fantasma agravam-se quando o sujeito se enerva ou quando alguém se aproxima da parte do corpo que previamente existia. A dor no membro fantasma está-nos a falar da representação ou mapa do membro que se encontra no cérebro. De facto, dentro do cérebro existem muitos corpos virtuais. Os nossos corpos virtuais permitem-nos conhecer onde se localiza o nosso corpo real. Se tentarmos alcançar um copo fechando os olhos, conseguimos fazê-lo porque o cérebro utiliza o corpo virtual para saber onde está o corpo real. Num membro fantasma ainda que a perna não esteja, a perna virtual e a relação da perna com o resto do corpo todavia mantém-se com a sua representação no cérebro.

    Existem vários estudos que apresentam resultados surpreendentes sobre esta temática da dor:

    Investigadores examinaram a Ressonância Magnética da coluna vertebral dos participantes do estudo e descobriram que 80% dos participantes sem sintomas ou dor poderiam ser diagnosticados com uma protrusão discal ou hérnia discal lombar e 38% dos participantes tinham duas ou mais dessas mudanças degenerativas.(3)
    As ressonâncias magnéticas retiradas dos ombros de participantes que não apresentavam sintomas nem dor mostraram que 34% deles apresentavam danos na coifa dos rotadores. Isso aumentou para 54%, quando os investigadores examinaram apenas pessoas acima de 60 anos.(4)

    Numa nova revisão sistemática do desgaste da coluna vertebral, os investigadores concluiram que as alterações degenerativas poderiam ser vistas como uma parte normal do envelhecimento e que são comuns em indivíduos sem dor. (5)
    Quando os ombros de pacientes foram avaliados ecograficamente, os investigadores encontraram “anormalidades” em 96% deles; novamente sem sintomas ou dor (6);

    Num editorial publicado no British Journal of Sports Medicine, um professor de medicina do Desporto afirmou que danos de menisco degenerativos (no joelho) devem ser consideradas como “rugas com a idade”.(7)

    Um estudo transversal de ressonâncias magnéticas feitas na coluna cervical de 1.211 participantes entre 20 e 70 anos encontrou que 87,6% delas apresentaram um abaulamento discal. Para os participantes de 20 anos, 73,3% dos homens e 78,0% das mulheres apresentaram abaulamentos discais; novamente sem dor.(8)

    Se olharmos mais de perto os dados da “Systematic Literature Review of Imaging Features of Spinal Degeneration in Asymptomatic Populations”, iremos reparar que 60% das pessoas com 40 anos de idade apresentam degeneração discal, 50% têm um abaulamento discal, 33% apresentam protrusões, 18% apresentam degeneração das facetas e 8% têm espondilolistese. No entanto, nenhuma delas apresenta sintomas ou dor. A incidência aumenta dramaticamente quando consideramos dados para pessoas com 80 anos de idade. Aqui, os dados mostram que 96% têm degeneração discal, 84% apresentam um abaulamentos, 43% apresentam protrusões do disco, 83% apresentam degeneração das facetas e 50% possuem espondilolistese. Ainda assim, nenhum desses grupos apresenta sintomas ou dor. (5)

    O Prof. Peter O´Sullivan, é um dos experts mundiais no estudo da DOR e ele referiu numa entrevista que: “…apenas 1% da dor lombar está relacionada com problemas graves da coluna, como malignidade, fratura ou infeção” e apenas 5% está relacionado com alguma protrusão discal ou compressão neural. Conclui-se portanto que 90-95 % das dores de coluna não possuem um diagnóstico baseado em exame radiológico. O grande problema que nós criamos é que há 50 anos atrás, se alguém tivesse dor lombar teria o diagnóstico somente de “lombalgia”. Mas atualmente, com os avanços nas técnicas de imagem e ressonância já é possível ter acesso a todas as “anormalidades” que a coluna tem, que acabam por ser normais. Até porque se fizermos um exame de ressonância à coluna de todas as pessoas, 90% tem alguma degeneração discal, 45% pode ter hérnia ou protrusão discal, 20-30% pode ter problemas de artroses nas facetas, etc. Assim, na tentativa de identificar os verdadeiros 5% que têm dor lombar causada por algum dano da coluna, criamos a falsa crença de que a maioria dos pacientes com dor lombar têm dor causada por estes “achados” radiológicos, os quais são achados normais e não têm qualquer validade para justificar a dor.”

    Todos os participantes e pacientes nos estudos destacados atrás – com exceção dos pacientes acidentados nas Urgências Hospitalares – tinham todo tipo de coisas “erradas” no seu corpo, mas nenhum deles sentiu DOR!

    Como isso pode ser possível?
    Porque é que o ombro do seu tio dói quando a coifa dos rotadores está degenerada, enquanto que as pessoas nesses estudos não tinham dor?
    E porque é que a sua dor volta quando trabalha no jardim, enquanto todas essas pessoas podem ter alterações degenerativas sem sentir dor?
    E o idoso que sofre de artrite em ambos os joelhos, mas apenas o esquerdo dói?

    A resposta é que a dor está longe de ser tão simples quanto acreditamos.

    Uma declaração feita pelo líder mundial em pesquisa da dor, Professor Lorimer Moseley, serve como uma porta de entrada para esta nova área de pesquisa. Moseley é professor de Neurociência Clínica da South Australia University e está na vanguarda da investigação da dor. O seus numerosos estudos científicos aumentaram amplamente a nossa compreensão sobre o que é a dor e o que não é. Moseley diz que “a dor é uma experiência consciente desagradável que emerge do cérebro quando a soma de toda a informação disponível sugere que você precisa proteger uma determinada parte do seu corpo”.

    A dor é, portanto, a soma do seu contexto ambiental (por exemplo: um ambiente calmo ou stressante, um campo de batalha, um hospital, um lar), o grau de sinal de perigo (nociceção), as suas crenças, as suas expectativas e as suas experiências passadas, assim como tantos outros fatores. Você experimentará DOR somente quando seu corpo perceba uma ameaça suficientemente grande em relação ao contexto.

    O alarme (DOR) é muitas vezes ativado quando ocorre uma lesão, mas o sistema de alarme é altamente inteligente e tem a capacidade de nos avisar antes mesmo de sofrer uma lesão, aumentando a probabilidade de evitá-la.


    Outra das formas de provar que é o CÉREBRO que controla a PERCEPÇÃO da DOR é o facto do GRAU de LESÃO não ser diretamente proporcional com o Grau de DOR!

    A resposta em termos de dor face a uma determinada lesão em cada paciente é bastante individual. Alguém pode ter uma lesão muito séria e queixar-se de pouca ou de nenhuma dor, enquanto outra pessoa pode ter uma lesão muito pequena e experimentar uma dor extrema.

    A intensidade de dor que experimentamos não está diretamente relacionada com a quantidade de dano que o tecido sofreu. É por isso que se diz que a lesão e a dor não estão diretamente relacionados e que “a dor está no cérebro”.

    Existem relatos de pessoas que chegam a Serviços de Urgências com facas ou qualquer outro objeto espetado em partes do corpo que não atingem órgãos vitais e referem pouca ou quase nenhuma dor.

    Recentemente, foi noticiado o caso de um idoso, que ao fazer um Rx para averiguar causa de problemas respiratórios, descobriram uma bala alojada no peito!
    Ele tinha sido soldado 70 anos antes na Guerra Mundial. E durante 70 anos nunca sentir dor no tórax ou teve problemas repsiratórios! Mas se eu me cortar com uma folha de papel, o golpe é tão fino e muito menos profundo que uma bala e vai-me causar uma dor enorme!!!
    Existem também relatos de surfistas que quando estão em cima da prancha à espera da onda perfeita, muitos deles são amputados numa perna com uma mordida de tubarão e na altura dizem que sentiram um simples golpe.
    Outro exemplo em que as forças e peso extremo atuam sobre o corpo sem que exista nenhuma queixa de dor, é quando um jogador de futebol marca um golo importante e terá toda a equipa em cima dele: é quase uma tonelada em cima. Contudo, depois do festejo o jogador levanta-se sorridente e segue a jogar frequentemente melhor que antes. No entanto, noutras circunstâncias, uma lesão menor pode levar uma pessoa a ter uma vida com dor crónica.

    Outro dos aspetos importantes na dor é o contexto da experiência da dor. Por exemplo: uma pequena lesão de picada de abelha no indicador provocará mais dor num violinista profissional que numa bailarina profissional. Isto acontece porque uma lesão de dedo representa uma ameaça maior para o violinista porque interfere com o seu sucesso e identidade do violinsta.

    IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO SOBRE A DOR NA ELIMINAÇÃO DA DOR:

    Quando a dor persiste e sentimos que nos está a arruinar a vida, é difícil compreender o porquê da dor ser útil, contudo a chave está em descobrir quais os motivos pelos quais o cérebro pensa que está em perigo e ameaça.
    Realizar atividades dolorosas sem entender porque dói, ativa imediatamente os mecanismos de proteção.
    Educação, conhecimento e compreensão reduz a ameaça associada à dor! Uma redução da perceção da ameaça tem um efeito positivo sobre todos os estímulos de entrada e sobre os sistemas de resposta. O movimento não só aumenta a saúde das articulações, tecidos moles, sistema circulatório e respiratório, mas tem também uma outra função muito importante. O movimento inteligente nutre o cérebro, já que estabelece e restabelece as representações sensoriais funcionais finas e as representações motoras no cérebro, utilizando vias abandonadas pelo medo e ignorância. O objetivo é ensinar a orquestra a interpretar as melodias novamente para que recuper a sua criatividade, curiosidade e otimismo.

    Combinar a educação em fisiologia da dor com abordagens orientados ao movimento melhora a capacidade física, reduz a dor e melhora a qualidade de vida.

    Tem sido mostrado que as pessoas relatam menos dor e com menos frequência depois que recebem educação/orientação sobre a dor. Por quê? Simplesmente porque você reduziu o nível de ameaça no seu cérebro. A educação sobre a dor pode servir também para reduzir a intensidade da dor nas lesões agudas.

    Educação sobre a dor é uma ferramenta essencial terapêutica utilizada pela FISIOVIDA. Compreender a fisiologia da dor muda a forma de pensar sobre ela, reduz o seu significado de ameaça e ajuda no tratamento. Muitos profissionais subvalorizam isto por acharem que os pacientes não entendem a dor por causa da neurociência e neurofisiologia ser muito dificil de explicar, mas é possível trazer esse conhecimento para os pacientes!

    BIBLIOGRAFIA:

    (1) Pia H Sorensen, Tom Bendix, Claus Manniche, Lars Korsholm, Dorte Lemvigh and Aage Indahl. “An educational approach based on a non-injury model compared with individual symptom-based physical training in chronic LBP. A pragmatic, randomised trial with a one-year follow-up” BMC Musculoskeletal Disorders 2010; 11:212

    (2) Melzack R, Wall PD, Ty TC. Acute pain in an emergency clinic: latency of onset and descriptor patterns related to different injuries. 1982 Sep; 14(1):33-43.

    (3)Jensen MC, Brant-Zawadzki MN, Obuchowski N, Modic MT, Malkasian D, Ross JS. Magnetic resonance imaging of the lumbar spine in people without back pain. N Engl J Med.1994 Jul 14; 331(2):69-73X.

    (4)Sher JS et al. Abnormal findings on magnetic resonance images of asymptomatic shoulders. J Bone Joint Surg Am. 1995 Jan; 77(1):10-5.

    (5) Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, Bresnahan BW, Chen LE, Deyo RA, Halabi S, Turner JA, Avins AL, James K, et al. Systematic Literature Review of Imaging Features of Spinal Degeneration in Asymptomatic Populations. AJNR Am J Neuroradiol.2014 Nov 27. [Epub ahead of print].

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