Relação entre o Covid-19 e o excesso de gordura corporal?

O Covid-19 é um vírus que apresenta sintomas comuns a outras infeções respiratórias virais, tais como febre, tosse seca e dispneia. Contudo, é um vírus que tem como alvo as vias aéreas inferiores, aumentando o dano no tecido respiratório e produzindo altos níveis de citocinas pró-inflamatórias no plasma. Além disso, pode apresentar características clínicas únicas, como rinorreia, espirros, dor de garganta, sintomas intestinais (como diarreia) e infiltração tecidual do lobo superior do pulmão.

Sabemos que, atualmente, não há, ainda, medicamentos antivirais específicos, nem vacinas contra a infeção do Covid-19, o que torna a prevenção a medida mais eficaz no combate a esta pandemia. Para além das medidas tomadas para reduzir a transmissão individual, também o estilo de vida saudável deve ser visto como uma importante e significativa medida de proteção, que pode ajudar a reduzir o risco de futuros surtos.

De que forma?

A evidência mais recente acerca do Covid-19 mostra-nos que os indivíduos mais vulneráveis a contrair a infeção têm doenças pré-existentes como diabetes, hipertensão arterial, doença cardiovascular e inflamação crónica, sendo que muitas destas condições são causadas ou estão associadas ao excesso de gordura. É importante salientar que os indivíduos com excesso de gordura não são apenas os indivíduos que apresentam excesso de peso ou obesidade. Sabe-se que 40% ou mais da população não-obesa, com um peso dentro dos valores normais, apresenta excesso de gordura corporal. O excesso de gordura está relacionado com o desenvolvimento de disfunções respiratórias, com o aumento do risco metabólico (hipertensão, dislipidemia, resistência à insulina) e com o desenvolvimento de comorbilidades (doenças cardiovasculares, diabetes mellitus, doenças renais).

Um sistema imunitário saudável protege-nos contra a maioria dos agentes virais endógenos e exógenos. Contudo, o excesso de gordura corporal afeta negativamente a função do sistema imunitário e dos mecanismos de defesa, reduzindo as respostas antivirais e tornando-as menos eficazes, ficando os indivíduos mais vulneráveis a infeções e ao desenvolvimento de doenças respiratórias crónicas. Além disso, indivíduos com excesso de gordura apresentam-se como menos responsivos à vacinação e à medicamentação antiviral.

O que contribui para o excesso de gordura?

A alimentação é um dos importantes fatores associados ao excesso de gordura corporal, sendo que o aumento do consumo de hidratos de carbono processados, especialmente o açúcar tem-se vindo a revelar um dos principais problemas.
Aliado a isso, regra geral, os indivíduos com excesso de gordura corporal são indivíduos mais sedentários ou com uma reduzida atividade física. Estudos mostraram que a atividade física está associada positivamente a resultados favoráveis na saúde metabólica (diabetes, obesidade e síndrome metabólica) e imunológica (níveis de ativação imune, eficácia da vacinação e senescência imune).

Importante referir ainda que um adequado programa de exercício quando aliado a uma dieta hipocalórica apresenta melhores resultados na diminuição da massa gorda e na manutenção da massa magra, quando comparado com um programa de exercício ou uma dieta hipocalórica de forma isolada.

Assim sendo, uma das lições mais importantes a retirar é que há uma relação entre um estilo de vida saudável e a presença de um sistema imunitário forte, tal que a adoção de uma boa alimentação e da prática regular de exercício deve ser vista como uma medida de prevenção, de forma a que o sistema imunitário tenha todas as ferramentas ao seu dispor para combater as ameaças a que é sujeito. No entanto, as práticas das medidas de higiene e de etiqueta respiratória e o distanciamento social serão sempre os métodos de prevenção primários face a esta pandemia.
De salientar que as mudanças no estilo de vida devem ser implementadas de forma gradual e sempre acompanhadas por profissionais da área, de forma a que tanto a alimentação como o exercício tenham em conta as necessidades e o historial clínico do indivíduo e a fase que estamos a atravessar. Aqui, na FISIOVIDA, pode contar com profissionais qualificados que poderão ajudá-lo em todo este processo.

Autora do artigo: Dra. Catarina Amorim

Bibliografia
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