Como recuperar o abdómen eficazmente depois de uma cesariana?

A Cesariana é uma alternativa ao parto vaginal. Este método surgiu para dar resposta aos casos em que o parto normal colocava em risco a mãe ou o bebé. Desta forma, recorrendo-se a uma cirurgia, o parto passou a ser possível segundo esta abordagem.

Imensas mulheres optam por este método mesmo não tendo indicações para tal. Sentem-se mais seguras, consideram que será menos traumático para o bebé e que um parto normal irá danificar o períneo sendo mais difícil a sua recuperação. Tais mitos devem ser desmistificados!

A Cesariana é, no entanto, o meio preferencial de parto em casos de tensão arterial elevada da mãe, apresentação pélvica do bebé ou problemas com a placenta ou cordão umbilical. É preciso, contudo, que a mulher tenha consciência que passará por uma intervenção cirúrgica com a necessidade de anestesia, catéter urinário e ausência de alimento ou líquidos durante várias horas.
O resultado da cesariana será uma sutura de cerca de 15cm no abdómen inferior da mulher. Devido à intervenção cirúrgica, é requisito alguns dias de internamento até obtenção de alta médica.

O que acontece numa cesariana?

Numa cesariana ocorre uma incisão que implica que várias camadas sejam cortadas até chegar ao bebé. Nessas várias camadas temos a pele, a gordura, a fáscia, o músculo abdominal, o peritoneu, o útero sendo a bexiga afastada para lá chegar, saco aminiótico e, por fim, o bebé.

Desta forma, são várias as camadas que vão necessitar de ser reabilitadas até que a mulher volte a ter um abdominal, um core, funcional.

Para além disso, toda a gravidez alterou a posição do centro de gravidade, do diafragma e aumentou a carga sobre a lombar e sobre o períneo. Foram 9 meses de transformação em que um a dois meses após o parto o corpo está também em constante transformação na tentativa de voltar ao normal, antes de uma gravidez.

Como recuperar?

A partir do momento em que existe uma sutura que envolve várias tecidos do abdómen, incluindo vários recetores sensitivos e musculares, é necessário voltar a sensibilizar, a estimular toda esta região. A massagem na cicatriz, não só superficialmente mas também mais profundamente, é essencial para quebrar aderências e promover o correto deslizamento dos tecidos entre si. Como acima referido, foram várias as camadas que foram cortadas até atingir o alvo logo é essencial prevenir e/ou diminuir aderências.

O toque, o Feedback táctil será imperativo nesta recuperação. O cérebro precisa de reconhecer novamente esta zona “anestesiada” de forma a poder voltar a envolvê-la no padrão de movimento. Podemos trabalhar com pontos de discriminação de forma a que a mulher comece a reconhecer o número de pontos de toque na sua barriga. A estimulação sensitiva é importante tanto como a motora. Neste sentido, durante os exercícios podemos auxiliar com o toque leve e preciso no ponto de recrutamento muscular, caso seja confortável para a mulher, ou usar acessórios que estabeleçam esse contato, como por exemplo, o magic circle.

O Pilates pode ajudar?

O método de Pilates foca-se no recrutamento do core com o objetivo de o tornar funcional nas várias posturas do nosso dia-a-dia. Essas posturas tanto implicam uma lombar reta como uma lombar “em redondo”. Tanto uma lombar reta como uma lombar em redondo implicam uma boa activação de reto abdominal e paravertebrais bem como activação abdominal profunda, com um bom recrutamento do transverso abdominal e a dita força abdominal hipopressiva.

Uma boa parede abdominal necessita de musculatura ativa e flexível capaz de conter os órgãos e dar estabilidade a toda a coluna e em especial, região lombo-pélvica.
Com Pilates vamos trabalhar todas as camadas que foram cortadas até o bebé ter sido alcançado.
A fáscia e o tecido muscular serão trabalhados na conjugação de exercícios de força e flexibilidade que o método de Pilates contempla. Para o peritoneu e recolocação do útero, os exercícios que contemplam uma postura invertida auxiliam nesta reestruturação física.
O trabalho respiratório numa fase inicial é importante visando a simetria do core e a coordenação com os músculos do perineo.
A activação da musculatura abdominal profunda é potenciada nos exercícios nos aparelhos de Pilates.
O foco da abdominal hipopressivo durante exercícios de pilates procurando a diminuição do volume abdominal durante a sua contração é uma das chaves para o recrutamento da musculatura profunda.
A recuperação de uma cesariana não implica um foco apenas a nível da musculatura abdominal mas, sim, de toda a musculatura pélvica em torno como glúteos, adutores, psoas, paravertebrais, quadrado lombar, bem como, musculatura torácica (grande dorsal, diafragma e intercostais).

Autora do artigo:

  • Dra. Marta Gomes – Fisioterapeuta especializada em Pilates na FISIOVIDA

    Bibliografia:

  • Wasserman et al, “Soft tissue mobilization techniques are effective in treating chronic pain following cesarean section: a multicenter randomized clinical trial.”, Journal of Women’s health physical therapy: september/december 2018; 42(3): 111-119.
  • Post Natal Physiotherapy advice and exercises, Norfolk and Norwich University Hospitals (NHS Foundation Trust);
  • Pilates anatomy, Rael Isacowitz.